sexta-feira, 2 de julho de 2010

BELLATORIS: O CAMINHO DE C. ASGER - Parte II

         O coração do jovem Christopher Asger batia acelerado, não tinha uma ideia clara sobre o que acontecera em sua vida para que ele, seminarista em Portugal há dez anos, deixasse seu país, companheiros e professores para adentrar em tão misterioso destino.
            Lembrou-se das últimas palavras do Cardeal. Em sua sala no seminário, o velho cristão colocou as mãos no ombro do assustado rapaz e disse temeroso: “Hoje perco meu mais dedicado jovem, porém os motivos se provam justos. Este é teu destino Christopher Asger, nunca temas o que encontrar em tua frente, pois a vida se prova extremamente generosa aos homens de coragem”.
            E assim foi levado pelo silencioso homem até um carro, que o levou á um avião, que cruzou os continentes, levando-o a um outro país, onde entraram em um outro carro e enfim, na atual carruagem.

            De dentro da carruagem, o rapaz pôde reparar nas dezenas de cabeças que espiavam-no escondidas em janelas embaçadas de Pinhal, gostaria de saltar e perguntar o porque de tanta curiosidade, mas este era apenas um dos inúmeros desejos do rapaz. Gostaria de saber para onde estava indo, gostaria de saber a razão de tanto silêncio e mistério, e principalmente, gostaria de saber o porquê de seu coração lhe dizer a cada segundo que ele se encaminhava ao melhor destino que faria em toda sua vida.

            A carruagem finalmente entrou na pequena estrada que corria para dentro da floresta de pinheiros, tão estreita que as árvores roçavam nas extremidades do veículo com seus grossos troncos. Os poucos raios de sol que passavam entre as frestas das árvores davam um clima exótico ao cenário, e a dança das sombras na face do rapaz seguido com o tremer da carruagem tentaram o jovem a se entregar ao sono, mas ele não podia se entregar, a ansiedade não deixava.
            E enquanto observava as sombras cortando seu rosto, refletia sobre as provações que sempre tivera em sua vida até o exato momento. O jovem Christopher Asger, filho de russos, conhecera o lado negro da vida no momento de seu nascimento.

            Seu pai, cujo nome esquecera há muito, abandonara sua mãe, Aretha Asger, dias após o nascimento de Christopher. Então coube a forte Aretha criar seu filho. Moravam em um casebre improvisado na periferia de Moscou, mas graças aos impostos atrasados, aos sete anos, o jovem Christopher viu seu lar ser demolido e seus bens vendidos para que sua primeira peregrinação começasse.
             Primeira de muitas.
            Sempre dependendo de caronas de caminhoneiros, mãe e filho passaram três anos nas pensões e estradas Europeias sem rumo definido. Mas foi na cidade de Lisboa, Portugal, que Christopher encontrou seu maior obstáculo até então.
            Acometida pela tuberculose e sem dinheiro para um tratamento adequado, Aretha pereceu no leito sujo de um hospital decadente. Sempre apegada às suas crenças, a mulher fez o jovem Christopher prometer à ela que procuraria imediatamente um seminário e dedicaria sua vida no exercício da fé.

            Momentos antes de morrer, Aretha retirou seu terço de cristal do pescoço e entregou nas pequenas mãos do jovem Christopher, pedindo a ele que vendesse para comprar comida. Ela sorriu, uma lágrima caiu do canto de seus olhos e assim ficou, paralisada, dura e fria. Estava morta e Christopher sozinho em uma cidade desconhecida.
            Enquanto velava o corpo da mãe sozinho em uma pequena capela do hospital, entendeu nas poucas palavras que conhecia do idioma português a expressão “menino” e “orfanato” vindas do lado de fora. Desespero. Havia prometido para sua mãe que dedicaria sua vida no cristianismo, então fugiu sem nunca saber o que aconteceu com o corpo da mãe. Correu por entre as ruas, atravessou as estradas, saiu da cidade.
            Descansou apenas algumas horas em um período de uma semana. Não sabia para onde ia, mas foi guiado por sua fé e pelo mesmo Deus a quem fora confiado por sua mãe até as portas de um grande seminário situado no alto de um morro, perto das plantações de trigo que de tão vastas, cobriam o horizonte.
            Desnutrido, fraco e visivelmente abatido, o pequeno Christopher Asger foi finalmente acolhido pelos Padres.
            Lá passou dez anos de sua vida.
            Até receber o chamado que o levou para aquela estrada sinuosa.
            Naquela floresta sombria.

CONTINUA...

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