segunda-feira, 26 de julho de 2010

BELLATORIS: O Caminho de C. Asger - FINAL

Antes de se aventurar pelas linhas, vale a pena recordar o início da jornada deste seminarista:





Agora sim, boa leitura, bravos Bellatoris!



      As horas passaram como um raio, logo, o garoto sentiu que o momento havia chegado, então abriu os olhos. Mas algo estava errado, não estava deitado na dura cama de madeira, e sim, em um chão asfaltado e úmido.
    Levantou-se e se viu no meio de uma enorme rua deserta. “Este pesadelo que me vem perseguindo há meses” pensou, enquanto se preparava para correr.
    A misteriosa rua deserta, com seus prédios destruídos e postes iluminando debilmente sua extensão era presente em todos os seus sonhos nos últimos meses. Não entendia o motivo de toda a noite possuir o mesmo sonho, onde fugia de uma misteriosa sombra que começava a persegui-lo.
    A sombra então surgiu de um céu tempestuoso, engolindo com a escuridão tudo o que tocava, sempre avançando em direção á Christopher, que corria tão rápido quanto suas pernas eram capazes, uma habilidade que aprendeu cedo, em Lisboa, quando os enfermeiros tentaram alcançá-lo após a morte de sua mãe.
    Já não sentia tanto pavor daquela sombra, pois sabia que era só continuar correndo que uma hora ele haveria de acordar. Mas desta vez, algo estava errado.
    A sombra parecia avançar com mais ferocidade, se aproximando a cada momento do garoto, que tentava correr cada vez mais rapidamente, mas seu corpo estava cansado da viagem, ele não conseguia correr mais rápido e aquela sombra o alcançaria em questão de minutos.
    Levava consigo o terço de sua mãe, apertando-o fortemente e pedindo aos céus que fizesse aquele pesadelo acabar, pois seu corpo se recusava a acordar.
    A sombra se aproximou, deixando soltar alguns sussurros macabros enquanto engolia a rua.
    Não havia onde se esconder, só poderia correr até suas pernas cederem e ele ser engolido pela sombra, mas não seria naquele momento, ele ainda possuía forças para fugir mais alguns minutos, e assim o faria.
    Correu por mais alguns metros, quando ouviu um titilar em suas costas. Olhou suas mãos e para o seu desespero, o terço de sua mãe havia caído no chão e seria devorado pela sombra caso algo não fosse feito.
    Christopher então se viu em uma emboscada, salvar o terço de sua mãe, ou a própria vida? A jóia possuía um valor sentimental imensurável ao rapaz, que passou dias de fome em Portugal, se recusando a vendê-la. Brigou pela primeira vez em sua vida com um colega seminarista que tentou roubá-lo, causando uma punição de uma semana lavando a louça de todos. Aquilo era como um amuleto de boa sorte para Christopher, que nunca passou um segundo separado dele, pois acreditava que, no centro daquelas pedras, estava guardada a alma de sua mãe, suas últimas lembranças e essência, o protegendo de todos os males.
    Agora a lembrança de sua mãe estava á alguns passos de ser consumida pela escuridão e Christopher não podiam permitir isso. Mesmo que sua vida fosse perdida em meio ás trevas, ele haveria de salvar as boas lembranças que lhe restavam.
    O garoto parou, respirou fundo e correu em direção á jóia, que brilhava no meio do asfalto úmido. A escuridão avançava com fúria, e os sussurros tornaram-se gritos de ódio.
    Christopher se jogou no asfalto e, sentindo a dor das pequenas pedras arranhando seu braço, agarrou firmemente o terço. Mas era tarde demais para se salvar, e a sombra finalmente o alcançaria.
    Então, jogado no chão e segurando firmemente o terço de cristal, Christopher fechou os olhos e orou. “Mamãe, proteja-me”.
    Um clarão o fez abrir os olhos, e quando percebeu, viu o terço de sua mãe irradiando uma luz branca e pura, fazendo com que a sombra reduzisse a velocidade.
    O garoto sentiu seu corpo se levantar involuntariamente, mantendo a mão esticada e brilhando como uma estrela em meio á escuridão do universo. Então, como uma onda, a escuridão finalmente o engoliu, mas não surtiu o efeito que esperava.
    Seu coração batia com muita força, seus olhos arregalavam no meio da escuridão a procura de algo, enquanto, á sua frente, o terço de sua mãe brilhava como uma estrela, irradiando uma energia tão pura e calorosa que afastava todos os males da escuridão que o engolira...

    - No inicio havia a luz... – Uma voz misteriosa veio de todas as direções. O ar se tornou puro, e o terço de sua mãe brilhava como nunca.
     - Então foi criada a matéria. – A voz firme continuou, então Christopher pôde ver vários vultos ao seu redor. Aos poucos sua visão se adaptou e o jovem seminarista teve a certeza de não estar sozinho em meio à escuridão, pois dezenas de pessoas se postavam em um círculo ao redor de seu corpo.
    - E da matéria, criou-se trevas. Tal o preço da existência, tal o sagrado equilíbrio. - Um foco de luz sugriu do alto, Christopher olhou assustado, mas logo desviou sua atenção para o homem que caminhava em passos lentos e despreocupados em sua direção.
      Aquele homem loiro, de gentil aparência ébria, abriu os braços e sorriu para Asger, sendo acompanhado por todas as pessoas que formavam o círculo. Então Christopher viu cada rosto que sorria com cordialidade, cada braço aberto, cada olhar emocionado.
     Christopher deixou todo o medo de lado e, guiado pelo brilhante terço de sua mãe, permitiu-se sorrir.
     Estava em casa.
    - Seja bem vindo, Christopher Asger. Bem vindo à Ordem dos Bellatoris.
   
...
E os anos se passaram.

...

Christopher viveu em paz em meio aos irmãos que a vida escolheu.

...

Para aquele Bellatori, os anos dentro da Ordem foram os melhores de sua vida.

...

Até aquela noite chegar...


Um comentário:

  1. Hey, cara! Eis que o caminho de Asger chega em seu final. Particularmente, adorei a história dele. Apesar de triste, nem sempre ele se coloca na posição de vítima e isso se traduziu muito bem quando ele foi um Bellatori para enfretar algo desconhecido para salvar o que de mais precioso tinha, algo superior, até mesmo, à propria vida. Parabéns, Dan! P.S.: Fiquei fascinado com os segundos finais do video. Bem impactante!

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